O juiz da 2º Vara de Justiça de Pedreiras, Dr. Cristóvão Barros, enviou um pertinente comentário ao Blog, onde teceu algumas ponderações sobre os lamentável fato ocorridos, ontem dia 19, em Poção de Pedras. Dr. Cristóvão aponta, em sua visão, alguns fatores que favorecem a escalada da criminalidade no município, bem como em toda a região.

Dr. Cristóvão Barros:

Meus sinceros pêsames à família do meu amigo MIGUEL, vítima de latrocínio, um dos mais hediondos dos crimes descritos em nossa lei penal. Mas, porque em Poção de Pedras? Onde até pouco tempo podia sair a deixar a casa aberta sem medo de que alguém adentrasse e furtasse qualquer coisa? Tudo, no meu entender, deriva da nossa sociedade de consumo, onde todos querem os objetos de desejos – veículos, roupas de grife, tênis, smartphones, boa vida – sem ter uma renda honesta que cubra tais gastos, parte para tirar dos semelhantes através do furto e do roubo.

E nossa Polícia, que está aí para prevenir (Polícia Militar) e para investigar a existência e os autores de crimes (Polícia Civil), tem culpa? Não. Se olharmos para nossa cidade temos três ou quatro policiais militares, número absolutamente insuficiente para cobrir sequer nossa cidade (e temos ainda o grande território com dezenas de povoados na zona rural). Esses três ou quatro policiais, como qualquer outro servidor público, cumprem horários, têm descansos semanais, feriados, o que na prática não sobra sequer um policial por dia para vigilância em nossa cidade.
Continua...

E a Polícia Civil? Simplesmente não existe em nossa cidade. Até onde sei, antes das lotações do último concurso, não havia um só agente investigador, um só Delegado de Polícia, um só escrivão. Como investigar e entregar bandidos à Justiça?

Assim, Poção de Pedras é o paraíso dos bandidos violentos, assassinos, assaltantes, pois sabem que a Polícia – Civil e Militar – não tem homens e mulheres suficientes para coibir as ações criminosas e nem para investigá-las. Aos poucos policiais existentes, quando existem, não são dadas as condições de trabalho exigidas para o bom desempenho da função: veículos e combustíveis, computadores, impressoras, satisfatória rede mundial de computadores, smartphone e tablets com acesso à internet, equipamentos para escuta telefônica e agentes especializados em informática, instituto de criminalística (só existe na capital), etc.

Pela deficiência do Estado em dar segurança aos cidadãos, é que o povo brasileiro, quando foi consultado sobre a venda de armas de fogo, com maioria ampla fez a sua aprovação. E aprovaria a utilização de armas de fogo generalizadamente, para pobres e ricos, pois hoje os primeiros estão sem o direito de portá-las, seja pelo alto custo, seja pela burocracia impeditiva.

E se o ESTADO não tem como dar segurança ao cidadão pobre, como impedir este de ter consigo uma arma de fogo para defender a si e a sua família. E não venha com o argumento de que em nada ajudaria, pois tenho certeza que meu amigo MIGUEL, em vez da pequena faca, tivesse um revólver, teria deixado esse bandidos mortos, e talvez tivesse com vida entre nós, e não conseguisse nem ele e nem seus familiares diriam que o Estado, que não cuida dos bandidos, pelo menos não o colocou indefeso em frente dos mesmos.

Assim, MIGUEL não será o único mártir desta história de sangue e horror em nossa cidade, mas ficará no coração de todos nós pela coragem que teve de defender o seu lar, a sua família, ainda que impedido de fazê-lo em igualdade de condições com os bandidos por expressa proibição do Estado ineficiente.

Segue em paz MIGUEL, Deus te receberá no Paraíso.