O blog publica um tocante depoimento encaminhado ao nosso whatsapp por uma jovem que teve sua casa invadida pela enchentes do Rio Mearim e hoje está com a família em um abrigo organizado pela prefeitura de sua cidade. Os nomes não serão divulgados.

“Bom dia, Carlinhos, eu sou aquela menina que te pediu o número do teu whatsapp no dia da visita do governador no alojamento. Eu tava escondida, com vergonha daquele movimento de gente importante... Tem gente que não tá nem aí, come essas quentinhas na frente do outros, se comportam como animais, mas eu não, fico é envergonhada com tudo aquilo. Procurei o nosso cubículo pra me esconder até que o povo do governador fosse embora. Quase me escondi dentro do guarda-roupa, mas minha mãe não iria deixa. Hehehehe.

Eu me sentei na cama, encostei a cabeça nas pernas, encobri meus cabelos com as mãos, os braços, queria me esconder. Aí ouvi alguém falar no seu nome. Tiver uma ideia na hora: ‘vou pegar o telefone dele para depois enviar minha história. Preciso desabafar com alguém o que eu e minha família passa aqui.’ Eu reconheci você no meio do povo, me aproximei e pedi o número. Você me olhou de cima a baixo e tenho certeza que nunca pensou que tava diante de uma desabrigada. Mas eu sou...

Meu amigo, morro de vergonha dessa minha vida de desabrigada.  Já perdi as contas das vezes que vir pra abrigo nas enchentes todos os anos. Tem anos que eu e minha família ficávamos em escola, mas esse virmos parar no ginásio. Quando era criança eu achava até divertido, mas agora, acho horrível! Odeio essa vida de desabrigada! É o dia inteiro de pânico e de vergonha. Só me dou conta do tanto que sou pobre, quando venho parar nesses lugares, no meio de tanta pobreza.

Você deve me achar orgulhosa, tipo, sou pobre e me acho rica... Mas sou assim mesmo, não me acostumo com essa vida, não aceito ela e nunca vou me acostumar e quero superar ela.

Realmente, a verdade é que minha família é muito pobre, não temos para onde ir, não temos dinheiro para alugar uma casa e muito menos para comprar uma casa num local onde não alaga.

Aqui cheira mal, é sujo, os banheiros são precários e somos obrigados a comer esmolas. Terrível.

A minha escola agora ficou mais longe. Daqui pro Santo Antônio é uma pernada. Faço o segundo ano do ensino médio, tenho 16 anos. Consegui trazer todos os meus livros e cadernos, como não tenho muito o que fazer, passo o dia estudando, fazendo trabalhos da escola, mas logo tudo acaba, não tem mais trabalho, o que estudar e só tenho o que me deparar com essa situação em que me encontro.

Nunca mais fui as casas das minhas amigas, estão longe... Basta essa pernada até a minha escola...

A família do meu namorado ofereceu pra eu ficar lá na casa deles, minha cabeça balançou, fiquei morta de vontade, mas depois entendi que não poderia ficar lá e deixar minha mãe, meu pai e meus outros dois irmãos aqui, nesse lugar, sem eu. Não posso abandoná-los, eles nunca me abandonariam. Senti que tinha que ficar com ele, alias, todos anos terei que ficar com eles até que eu vença na vida, compre uma casa de verdade que não alaga todos os anos. Espero que esse dia chegue logo.

Mas o meu namorado, eu o proibir dele vir aqui, já mandei muitos áudios; se ele vir aqui, me encontrar nesse lugar horrível, termino esse namoro na mesma hora. Sou mesmo orgulhosa e nesse ponto sou mesmo resolvida. Tenho vergonha de tudo isso.

Acredita que meu namorado passou de moto e me encaminhou uma foto do lado de fora do ginásio cheio de coraçãozinho. Eu quase desmaio. “Fica longe daqui, do contrário...” Eu disse pra ele.

Esses dias andei chorando muito, fiz uma grande maldade com o meu pai; estou muito arrependida. Teve aquela briga que você botou no blog, aquilo foi horrível, mas acontece toda hora. Mulheres brigam aqui a toda hora, por questão de espaço, de intrigas, tá todo mundo estressado. Aqui é um inferno, mesmo!

A noite eu me desesperei e gritei com o meu pai; eu estava em pânico, me descontrolei muito, disse que ele era o culpado de estarmos naquele local, que não suportava mais aquilo, que iria ficar doida se passasse mais um dia e que ele já deveria ter tirado nós daquele lugar que alaga todos os anos. Como sempre, minha mãe me deu um tapa. É ela que costuma me bater, quando falo demais. E ela tá certa. Meu pai, nunca encostou a mão em mim. Ele só encosta a mão na minha cabeça, me afaga e me manda estudar.

Naquela hora, me joguei na cama e comecei a chorar. Meu pai não disse nada, sentou na cadeira e ficou calado. Ele não saiu daquela cadeira até o amanhecer. Ele não dorme durante a noite, tem que ficar vigiando, porque roubam tudo aqui.

Eu passei a noite em claro e lá madrugada, ouvir alguém chorar. Era meu pai. Eu não acredito, meu pai estava chorando. Eu nuca vi ele chorar... Carlinhos, foi de cortar meu coração. Me sentir a pior pessoa do mundo. Eu fiz o meu paizinho chorar. Me senti horrível e injusta. Eu queria ir onde ele, abraçá-lo, beijá-lo, pedir perdão e dizer que ele é o melhor pai do mundo, que o amo muito e que eu me comportei mal, mas estava embrulhada, envergonhada, me sentindo mal.

Coitado, como posso fazer isso com ele. Ele não merece minhas palavras. Os pais deles eram ainda mais pobres, não puderam dar estudo pra ele. Cresceu sem estudo, casou com minha mãe sem uma profissão certa. Quando me perguntam na escola qual a profissão do meu pai, teve ano que disse que era pedreiro, outro ano disse que era encanador, depois pescador, trabalha em roça... Teve um tempo que era vigia da prefeitura, foi um tempo bom e tranquilo, tinha um dinheirinho certo todo mês, mas foi dispensado.

Todo dia meu pai sai de casa cedo atrás de algum serviço para ganhar dinheiro para o nosso sustento. Tem dia que ele volta com dinheiro, e tudo fica tranquilo. Nesse dia ele fica feliz do jeito dele e a gente sabe que ele tá bem. Ele conversa muito, fala com a gente pra estudar, que os estudo vai dar futuro, essas coisas. Liga a TV e fica assistindo o jornal, o jogo, senta na porta, conversa com os vizinhos, toma café e fica bem até a hora de dormir.

Quando não consegue nenhum serviço, nenhum dinheiro, ele entra calado, e se tranca no quarto. Parece que se esconde do mundo, agora, hoje, eu fico pensando: será se ele chora nessas horas? Meu Deus, ainda vou cuidar dele e de minha mãe e de meus irmãos!

Toda essa dificuldade, toda essa provação, esses roubos, essas confusões, esses cheiro horrível, essa gente mal educada, porque não teve educação mesmo, só me faz ver que amo minha família e vou ficar com ele até o fim.

Não vou fazer o que esse homem fez, aqui na frente, que tirou a própria vida, não vou me vender, vou vencer com muita dignidade, porque tenho uma família que amo e ainda vou tirar eles dessa situação de desabrigados, porque meu amigo, Carlinhos do Blog, pense numa coisa ruim é ser desabrigada!

Olha, era isso que eu queria te dizer, nem sei o que escrevi, aqui tenho muito tempo, passo o dia no what. Meu amigo, não quero te pedir nada, mesmo porque estou cansada desses donativos...

Ah, se eu fosse pedir algo como desabrigada, meu Deus sabe o que eu pediria, eu pediria pra fazer curso de informática na Bomerangue, curso de inglês na Wizard, um emprego no Mateus,  ah, também se fosse pedir, queria donativos era da Flora Modas Ecxorya, CRYZZON CONCEPT, Eclipse Modas, Mart Modas, Marina Modas, MB Boutique, Vitória Modas, Bella Graça Boutique, Gracideth Modas, Cricrof City, amo essas lojas, só vou pra olhar vitrina. Kkkkkk. Também queria ser amiga da Cirene, da Liginha, da Mayane, da Kizzy, conhecer a casa da Kizzi. Mas estou brincando, meu amigo, só sonho, um beijo de sua amiga que tá aqui no abrigo. Muitos corações.